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“Não houve acidente”, diz advogado da família de PM de Alagoas morto

Por Redação com Metrópoles 14/09/2023 18h06
PM Taveira - Foto: Cortesia

Familiares do tenente da Polícia Militar de Alagoas Abraão da Silva Taveira buscam esclarecer as circunstâncias que ocorreram durante o curso de controle de pânico, realizado em Brasília, que levaram o oficial à morte, aos 39 anos. De acordo com o advogado da família, o episódio no treinamento não teria sido acidental.

Taveira sofreu uma parada cardíaca durante um curso de Cinotecnia – conhecimentos relacionados ao treinamento de cães – , realizado pela Polícia Militar do Distrito Federal, em 30 de agosto. O oficial participava de uma atividade coordenada pelo Corpo de Bombeiros do DF (CBMDF), no centro de treinamento da corporação.

O tenente do Batalhão de Cães da PM alagoana fazia uma atividade dentro de uma manilha com água. Ele teria sofrido um mal súbito, permanecido com a cabeça submersa durante algum tempo e ficado vários minutos sem respirar.

Após dias internado em estado grave no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), o policial alagoano morreu na última sexta-feira (8/9). Ele sofreu um edema cerebral e estava em coma desde que foi levado às pressas para a unidade.

Para elucidar o que teria acontecido na realização do curso, a família de Abraão cobra uma reprodução simulada do incidente. De acordo com os parentes, a versão oficial dos militares do Distrito Federal e o relato das testemunhas sobre o caso são contraditórios.

Ao Metrópoles o advogado Napoleão Lima Júnior, especialista em causas policiais, contou que a família do tenente Taveira contesta algumas informações apresentadas pelas forças de segurança da capital federal sobre o episódio do curso.

“Eles [autoridades] alegam que o tenente teve um mal súbito. Mas foi um mal súbito gerado pelo o que? Temos provas que comprovam que ele não passou mal em razão do calor, ou algo da natureza, a gente tem prova técnica de que não houve acidente”, alega o advogado do escritório Napoleão jr & Advogados Associados.

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Segundo o CBMDF, a atividade foi ministrada dentro dos protocolos de segurança estabelecidos. A ideia da atividade era treinar os militares para a atuação no resgate de vítimas que estejam em ambientes confinados ou em estruturas colapsadas com o auxílio de cachorros. Os bombeiros informaram que o militar passou mal subitamente, já no período noturno, perto do término dos exercícios.

No momento em que teve o suposto mal súbito, o homem estava nas manilhas horizontais. Sua situação foi percebida por outro militar, e ele foi retirado do local imediatamente.

Em contrapartida, a versão oficial repassada à família do tenente foi a de que Taveira teria batido com a cabeça na manilha, desmaiado e se afogado, quando foi resgatado por um instrutor, não por outro participante, conforme relatou o advogado.

“Tem que existir algo que corrobore pro suposto mal súbito. Na penúltima manilha, você sai de um tubo pra entrar na próxima manilha se rastejando. Como ele teria batido a cabeça? Tem uma manilha submersa, onde ele entra, resgata um boneco, que é um simulacro de um ser humano. Ele mergulha, pega esse boneco, sobe com ele e entra nessa última para completar a atividade”, explica Napoleão.

A atividade, de acordo com o especialista, não tinha uma exigência de esforço físico tão exorbitante que pudesse levar a óbito. “Esse curso não é para o aluno ser levado à exaustão, como em outros cursos operacionais de maior intensidade. A gente sabe pelos laudos que ele não bateu a cabeça e desmaiou, mas que teve escoriações na testa quando foi retirado da manilha”, reforça.

Falta de suporte avançado


Outro ponto que a família do oficial contesta é a falta de uma ambulância de suporte avançado durante a realização do treinamento. Segundo o advogado, a viatura que havia no local era composta apenas por paramédicos e não possuía equipamentos para pronto-atendimento de parada cardíaca.

“A viatura que eles diziam que estava apta no local não era uma ambulância de atendimento avançado. Nesses cursos, há uma exigência de ter uma viatura de prontidão no local para prestar imediato socorro. Essa ambulância só foi acionada 30 minutos depois do suposto mal súbito. Por que a viatura que estava no local não foi suficiente?”, comentou Napoleão.

Diante dos questionamentos em relação ao ocorrido no treinamento, após ouvir testemunhas e instrutores envolvidos no curso, a defesa pretende solicitar uma reprodução simulada, para apurar o que de fato aconteceu.

“Ele não foi só levado a um estresse natural do curso. Aconteceram coisas absurdas. O tenente Taveira é um dos mais preparados do Brasil, justamente por essa capacidade técnica. Ele estava com a saúde na sua integralidade”, afirma o advogado.

Inquéritos


A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) informou que, de acordo com a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que é a responsável pela investigação do caso, a autoridade policial encarregada já iniciou um inquérito policial para apurar as circunstâncias que envolvem o ocorrido. Os militares que participavam do curso, tanto os alunos quanto os instrutores terão seus depoimentos colhidos.

A SSP-DF esclareceu, ainda, que, conforme informado pelo Corpo de Bombeiros Militar do DF, em 1º de setembro foi instaurado um processo de investigação interna. “Inicialmente, esse processo tem um prazo de 40 dias para ser concluído, com a possibilidade de prorrogação, caso seja necessário”, disse.

A Polícia Militar do DF (PMDF) informou que a Corregedoria instaurou Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar os fatos e as circunstâncias, e que não houve, até o momento, a necessidade do afastamento de militares de suas funções. “A investigação aguarda a manifestação, por meio de laudo médico do órgão competente, acerca da causa da morte do policial”.

A Polícia Militar de Alagoas também abriu um procedimento administrativo para apuração do fato. “O relatório final desta apuração servirá de subsídio para o inquérito policial militar que foi aberto pela PM do Distrito Federal”, afirmou.

Uma comissão composta pelo secretário executivo de Políticas de Segurança Pública, coronel Patrick Madeiro, representando a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL); além do corregedor-geral da PMAL, coronel Jefferson Clayton; o subcorregedor-geral, tenente-coronel Lima Neto; e o comandante do Batalhão de Operações Especiais Policiais (Bope), tenente-coronel Henrique Jatobá, vem à Brasília para se reunir com autoridades do Distrito Federal e coletar mais informações sobre as investigações.

De acordo com o advogado, a família do tenente vai entrar com duas ações indenizatórias contra o CBMDF pela divulgação errada da morte de Taveira por meio das redes sociais e contra o Governo do Distrito Federal.